03.03.16 | Escrito por: O Bom de Viajar

De Carona com o Bomde – Aconcágua

O mais novo espaço para compartilhar roteiros, dicas e histórias de viagens

 

De Carona com O Bom de Viajar

 

Um novo roteiro, diferentes cidades, novas experiências e sensações… Cada viagem, mais e mais histórias. Tudo novo, de novo, sempre. E para ir fundo nessas experiências que só uma trip pode proporcionar, criamos a coluna De Carona com O Bom de Viajar.

 

 

Um espaço onde vamos contar os melhores roteiros de viagens pelo Brasil e pelo mundo feitas pelos nossos queridos amigos e parceiros viajantes.

 

 

Para inaugurar essa coluna com o pé direito – e nas alturas – convidamos um viajante muito querido por aqui. 😀 Pepe Fiamoncini integra o time de loucos por viagem da Rede de Hotéis BHG e é aquela pessoa que antes de chegar ao trabalho já fez uma trilha, pedalou, correu… e ufa, chegou a tempo no escritório! (sim, é possível! ).

 

 

De Carona com O Bom de Viajar

 

Venha De Carona com O Bom de Viajar! A cada roteiro, novas experiências. A cada viagem, novas histórias. Já está com a mala pronta?

 

De Carona com O Bom de Viajar

 

A viagem do Pepe começou com um convite do irmão mais velho, Moeses Fiamoncini, que mora atualmente em Londres, para que eles se encontrassem em algum lugar da América do Sul para passar o fim de ano juntos. Desde os 18 anos, Moeses vive a vida viajando, numa dinâmica na qual ele trabalha 6 meses, junta um dinheiro, e passa os 6 meses seguinte na estrada. Que sonhooo!

 

 

Hoje, com 36 anos, ele já passou por lugares inesquecíveis, viveu experiências extremas e juntou muita, mas MUITA história pra contar!

 

 

Com o destino definido – Mendoza, na Argentina – os irmãos viram que eles deveriam ir além de uma simples viagem e decidiram subir, juntos, o Aconcágua, ponto mais alto das Américas, com 6.962metros de altitude. Isso poderia ser relativamente fácil para Moeses, escalador experiente que tem o Montblanc (segundo pico mais alto da Europa) e Kilimanjaro (na África) na bagagem. Mas para Pepe, acostumado com trilhas e travessias em altitudes bem mais leves que a do Aconcágua, o desafio seria enorme. E ele, é claro, aceitou.

 

 

AQUECIMENTO ACONCÁGUA

 

 

Foram meses de preparação: pesquisa sobre a experiência de outros escaladores, as dificuldades físicas e psicológicas, o clima e o terreno hostil… Tudo para ficar o mais familiarizado possível com a empreitada que estavam prestes a fazer. Feito isso, nosso viajante chegou 3 dias antes em Mendoza para providenciar as documentações necessárias para subida, o aluguel de equipamentos especiais e a alimentação.

 

 

DICA: para subir o Aconcágua é necessário tirar uma licença que tem como tempo máximo de permanência 21 dias (permanecer nessa altitude por mais tempo se torna extremamente perigoso para o organismo). Para os países sul-americanos, essa licença tem um valor especial, e custa em torno de $195 dólares. Não economize na escolha das botas. Elas precisam ser de excelente qualidade e apropriadas ao frio extremo, pois os pés congelam com grande facilidade durante o percurso, como aconteceu com o Pepe (algumas vezes!) na sua jornada. Adesivos térmicos são uma mão na roda. Também vale a pena contratar o serviço das mulas para levar as mochilas na primeira etapa do trajeto (elas carregam até o acampamento base, na Plaza de Mulas). Isso ajuda a ganhar tempo durante o período mais puxado do percurso.

 

 

A SUBIDA

 

 

O plano era chegar ao cume em 13 dias. Para isso, todo um cronograma foi criado prevendo o tempo de caminhada (eles fizeram em média 8 horas/dia, podendo variar bastante conforme a altitude), aclimatação (no tradicional esquema sobe alto, dorme baixo), a quantidade de refeições e o descanso. E, para surpresa dos dois irmãos, uma amizade inesperada já surgiu na primeira etapa do percurso: eles conheceram o uruguaio Pablo Reis, que estava em sua segunda expedição ao Aconcágua e faria a subida sozinho. Os três seguiram juntos durante todo o trajeto e se ajudaram de maneira incondicional.

 

 

DICA: É importante ter em mente que nessa altitude, a sensação de fome quase desaparece. E é muito importante repor as energias, pois além do gasto energético ser bem elevado por conta do esforço físico em si, a partir de 5 mil metros de atitude, praticamente tudo o que é ingerido o corpo precisa queimar para manter o organismo vivo, em meio a tamanha adversidade.

 

 

UM PASSO POR VEZ

 

 

Os meninos logo perceberam que o desafio era muito maior do que imaginavam: o vento ultrapassava os 60km/h e a sensação térmica atingia os -30C. À noite, enquanto dormiam nos acampamentos, o barulho das avalanches era perturbador. Para beber água, todo um ritual precisava ser feito: descongelar, adicionar pastilhas de cloro para remover possível contaminação, adicionar um chá ou suco para ter ingestão de sais minerais (pois a água congelada é pobre em sais minerais) e esperar esfriar… Agora, imagina ter que ingerir até 8 litros de água por dia, já que a cada 1.000 metros de altitude deve-se adicionar 1 litro aos usuais 2 litros do nível do mar! o/

 

 

Mesmo com toda essa dificuldade, quando o dia amanhecia, eles eram presenteados com as paisagens mais lindas que já viram na vida e observavam as pessoas pequeninas lá embaixo, dando um passo de cada vez até chegarem ao topo. Todo desconforto sumia e só restava um sentimento: uma alegria imensa por estar vivo e vivendo essa experiência!

 

 

DICA: é muito importante achar o próprio ritmo. Não se deve andar rápido demais para não suar e, consequentemente, facilitar o congelamento das extremidades. Ao mesmo tempo, não se deve andar devagar demais, pois o corpo fica muito exposto ao frio e altitude, reforçando o risco de congelamento. Em altitudes extremas como essa, o corpo pode ser levado ao limite, sem conseguir mais aclimatar, podendo ocorrer uma série de distúrbios como edema pulmonar e edema cerebral, por exemplo.

 

 

RUMO AO CUME!

 

 

O ataque ao cume, como não poderia ser diferente, foi o momento mais dramático de toda a viagem. Exaustos, no limite físico e psicológico, Pepe, Pablo e Moeses precisaram de duas tentativas até, de fato, chegarem ao ponto mais alto das Américas. Eles enfrentaram o mau tempo, uma visibilidade quase nula, pés congelados e um cansaço absoluto. Até que, no décimo dia de expedição, a saída rumo ao cume foi feita às 3AM (3h da madrugada). Eles precisavam estar de volta ao acampamento às 14h, no máximo, pois existia a previsão de uma forte nevasca no cume. Já imaginou?!

 

 

Assim foi feito. Eles chegaram ao topo do Aconcágua junto com o sol e mal podiam acreditar no que estavam vendo. Imagina olhar ao redor e ver absolutamente nada, além do céu e você?

 

 

Esse é o tipo da coisa que nos tira a palavra e o fôlego. Mas se os nossos viajantes tivessem que definir esse momento em uma única palavra, seria … PLENITUDE, sem dúvidas!

 

 

AQUELA DOSE EXTRA DE ADRENALINA

 

 

Os últimos metros foram os mais difíceis. Segundo o Pepe, os mais difíceis da vida dele, pois já faltava energia, o psicológico estava mais do que abalado, principalmente depois da primeira tentativa de ataque ao cume ter fracassado por conta do congelamento do seu pé. E quando todos pensaram que passado essa fase seria tudo mais fácil, que era apenas uma questão de iniciar a descida, a história tomou outro rumo.

 

 

Moeses sentiu que a sua visão não estava boa. Ele enxergava apenas vultos e mal conseguia distinguir as pessoas. Pablo estava com a ponta dos dedos das mãos congeladas, já em estágio avançado. Vale lembrar que, a mais de 5 mil metros de altitude, o resgate de helicóptero não pode chegar,  pois como o ar é rarefeito, não dá sustentação à aeronave.

 

 

Sendo assim, o trio precisou descer boa parte do percurso de volta por conta própria, até que eles chegassem a um acampamento onde o resgate poderia ser feito.

 

 

Moeses desceu com a ajuda de Pepe e Pablo, sem enxergar praticamente nada, enquanto Pablo resistia ao real estado dos dedos congelados. Após 1 dia de descida eles chegaram ao acampamento, onde receberam o atendimento de emergência no pronto socorro improvisado da montanha. Foi aí que Moeses e Pablo perceberam que se não fossem para um hospital o quanto antes, eles correriam o risco de não reverter mais a situação.

 

 

Levados para o hospital mais próximo por um helicóptero, Moeses e Pablo saíram da montanha para receber cuidados intensivos e Pepe seguiu sua jornada descendo rumo a base, dessa vez, sem o irmão e o amigo. Mas recebeu um imenso carinho de pessoas que acabava de conhecer ao longo do caminho.

 

 

Foram mais 3 dias de descida até que a jornada chegasse ao fim. Sem contato com o irmão e Pablo durante todo esse tempo, Pepe ficou aliviado por chegar ao fim da missão e finalmente ter noticia deles.

 

 

Chegando em Mendoza, Pepe encontrou o irmão, Moeses, já praticamente recuperado e Pablo, com as mãos ainda imobilizadas, caminhando para a recuperação também. Não precisamos nem falar que foi uma noite de reencontro regada a vinho e muitas histórias, né?

 

 

Foram 13 dias até a volta à base da montanha. Dias de superação, de autoconhecimento e, acima de tudo, de AMIZADE. Sem o apoio que Pepe, Moeses e Pablo deram uns aos outros, além da ajuda e do entusiasmo de outros escaladores que conheceram no caminho, possivelmente esse percurso não seria finalizado. E de que vale a vida se você não pode compartilhar momentos sublimes como esse, não é?

 

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E aí, já está de mala pronta? Não vemos a hora da próxima viagem =) Embarque De Carona com O Bom de Viajar e conheça histórias incríveis, como essa.

 

 

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