21.12.16 | Escrito por: O Bom de Viajar

Mas você vai sozinha?

Gaía Passarelli, viajante e autora do livro que chegou pra nos Inspirar

How To Travel Light é uma frase que por si só já é um tanto inspiradora. Em dias corridos e vida que passa rápido, nada como uma boa trip pra desconectar, conectar, ser, estar, relaxar…

 

A jornalista e escritora Gaía Passarelli sabe bem disso e vem colocando o seu pé na estrada desde criancinha. Pra nossa sorte, ela nunca mais parou! 🙂

 

Hoje, Gaía, que já percorreu 24 países, segue colecionando momentos, viagens, souvenirs e histórias. Histórias que ela conta no seu blog (How To Travel Light) e no recém-lançado Mas você vai sozinha? – livro que conta suas aventuras mundão afora em viagem solo.

 

A obra fala de suas experiências, crônica bem-humorada e super sincera de suas trips, que nasceu com intuito de contar sobre os desafios de ser mulher, viajar sozinha, sem medo e preconceitos.

 

Gaía, suas histórias e suas viagens são o Inspira da vez. Vem com a gente! =)

 

mosaico

“A nossa própria companhia, na maior parte das vezes, é mais do que suficiente: é o ideal” – Gaía Passarelli

 

 

Nos anos 90, a estrada de Gaía Passarelli era outra. Escrever e divulgar tudo (ou quase tudo) sobre o cenário da música eletrônica, independente e alternativa, no extinto site rraurl.com, era a sua praia.

 

Já nos anos 2000, partiu para a TV. Na MTV brasileira, comandou vários programas, entre eles o Goo, Extrato e MTV1, de 2010 a 2013. Em paralelo, também colaborou com importantes publicações de música por aqui. Pronto: estava consolidada sua carreira no cenário cultural no Brasil. 😀

 

E foi durante suas idas e vindas, ainda nas viagens por conta do seu trabalho na MTV, que Gaía deu os seus primeiros passos no apaixonante mundo das trips. A partir dali, a viagem a escolheu e não teve mais volta.

 

Há mais ou menos 3 anos, a paulistana que ganhou o mundo, escreve sobre comida, Sampa, música e VIAGEM.  <3 Este último, motivo maior que ganhou o nosso coração.

 

E é no blog How to Travel Light que suas viagens solo ganham asas. Suas histórias, dicas e roteiros pelos muitos países da América Latina e Europa que visitou estão lá, à disposição pra quem quer chegar.

 

E pra ficar melhor, Gaía lançou recentemente o livro Mas Você Vai Sozinha?, um compilado de suas viagens por São Francisco (EUA), Kanyakumari (Índia), Medellín (Colômbia) e Paranapiacaba (Brasil). Crônicas bem sinceras e super engraçadas, com dicas para a mulherada pegar a estrada, sem medo de ser feliz. Tudo isso ilustrado lindamente pela artista plástica Anália Moraes.

 

Com vocês, Gaía, nossa Inspira da vez. ☺

 

 

Gaía escrevendo em um parque
“Fazendo o que gosto de fazer, escolhi fazer e faço todos os dias” – Gaía (Foto @soubasico).

 

Ilustração de Anália Moraes
Ilustração do livro “Mas você vai sozinha?” por Anália Moraes

 

Ilustração de Anália Moraes
Empoderamento feminino nas ilustrações de Anália Moraes

O Bom de Viajar: Após anos trabalhando com comunicação no universo da música (alternativa), colaborando com publicações importantes sobre o cenário cultural brasileiro e apresentando programas na MTV, você partiu para o mundo das viagens. Qual foi a sua maior motivação? Por que viagem? Quem escolheu quem?

 

Gaía Passarelli: Acho que foi a viagem que me escolheu. Mas isso aconteceu porque eu estava muito desanimada com o jornalismo musical, com a falta de espaço para vozes diferentes e os desafios de uma mídia que está em transformação. Estava sem enxergar caminhos, totalmente perdida. O turismo, por outro lado, é uma das indústrias que mais cresce no mundo e oferece muitas possibilidades. Acabei escrevendo sobre viajar mais por gostar muito de escrever e estar procurando assunto. Como estava viajando bastante a trabalho por causa da MTV, a coisa aconteceu de forma natural.

 

Bomde: O blog How To Travel Light traz dicas, roteiros e vários outros assuntos ligados ao universo de estar por aí (do seu estar por aí). Nele, você compartilha suas histórias de viagens e divide as questões de como é ser mulher e viajar sozinha, por exemplo. Como, então, surgiu a ideia de levar essas e outras histórias para um livro? E quando você entendeu que o Mas você vai sozinha? seria um instrumento importante de empoderamento feminino?

 

Gaía: Esse recorte veio muito em parceria com a editora. Raramente a publicação de um livro é um processo totalmente solitário. No caso do “Mas Você Vai Sozinha?” teve equipe e muita conversa. As ilustrações da Anália Moraes e as dicas para viajantes solo no fim de cada capítulo, que dão muito valor ao livro, foram sugestões da editora. Mas foi escrevendo que comecei a ver as histórias como possibilidade de inspiração para outras mulheres e foi só com o retorno das leitoras que enxerguei que esse “instrumento de empoderamento” (para usar suas palavras) existe.

 

 

Foi escrevendo que comecei a ver as histórias como possibilidade de inspiração para outras mulheres e foi só com o retorno das leitoras que enxerguei esse ‘instrumento de empoderamento’

 

 

Bomde: “Dizem que aqui é o fim da Índia. Mas o mar é um só, e é onde tudo começa”. Essa frase, que extraímos do seu livro, é muito forte e simbólica. Pra você, todo fim é um novo começo?

 

Gaía: Sim, todo fim é uma oportunidade de começar outra coisa, mesmo que não seja o que você pensava. A frase não é minha, é do cuidador de um pequeno templo na beira do encontro dos três mares em Kanyakumari – quem sabe até seja de outra pessoa, não sei dizer. Uma coisa que não tinha como entender na hora era que aquela viagem era o começo do fim de várias coisas na minha vida. Voltei da Índia muito disposta a saber mais do mundo, conhecer, aprender, viajar. Mas para isso acontecer eu tive que perder uma porção de coisas que considerava importantes.

 

Bomde: “É uma sensação surreal estar na extremidade de um continente, sozinha, tão longe de casa quanto jamais estive.” Essa frase do livro narra uma situação de insegurança total vivida em Kanyakumari, na Índia. De todas as suas aventuras, você acha que essa foi a situação mais complicada? Pensou, em algum momento, em desistir da viagem?

 

Gaía: Acho que foi a situação mais complicada, sim. Mas comparando com outras situações de mulheres em viagem que eu leio e conheço, essa situação até que parece bastante segura. Ir embora da Índia naquele momento por causa de uns bêbados inconvenientes nem passou pela minha cabeça. Mas eu fui embora da cidade, para me sentir segura em outro lugar.

 

Bomde: É bacana a forma com que você dá dicas do que melhor vestir, características de cada lugar e quais pontos de atenção para as meninas em cada destino. É difícil ter acesso a informações tão específicas publicadas por aí, na internet ou não. Como você faz para planejar as suas viagens? Consulta outras blogueiras, lê todos os roteiros possíveis ou vai descobrindo quando chega no lugar?

 

Gaía: Uma mistura dos dois. Eu leio e me informo muito. Bato sempre nessa questão da informação: é a maior defesa que a gente tem contra um mundo que às vezes é hostil mesmo. Eu me preparo como posso, mas sabendo que uma vez na estrada as coisas nem sempre são como a gente planeja. Agora, uma coisa muito legal e importante que percebi nesses três anos como viajante e escritora é o tanto que outras viajantes estão sempre dispostas a compartilhar seus aprendizados e ajudar umas as outras. Tem muitos blogs de relatos de viagem, grupos de Facebook, fóruns de dicas. Eu já recebi colegas viajantes em São Paulo e já recebi ajuda em outras cidades por aí.

Viagem à Índia 1
Gaía na Índia

 

Viagem à Índia 2
Viagem para conhecer…

 

Viagem à Índia 3
…E se desafiar.

 

Viagem ao México 01
Conhecendo o México

 

Viagem ao México 02
Viagem ao México

 

 

A maior defesa que a gente tem contra um mundo que às vezes é hostil mesmo.

 

 

Bomde: Gaía, você acredita que viajar e encarar os próprios medos pode ser o principal caminho para enfrentar e quebrar todas as barreiras que uma mulher tem por simplesmente ser mulher? O negócio é cair na estrada mesmo?

 

Gaía: Ontem uma amiga mandou um link de um relato de viagem que é algo como “viajei sozinha e foi péssimo”. Achei engraçado, mas é legal lembrar que o que é verdade pra mim pode não ser pra você, e vice-versa. Então não dá pra dizer que o lance “é cair na estrada mesmo”. Mas viajar sozinha (sozinha mesmo, não numa tour com pessoas que você não conhece ou com alguém organizando sua viagem) te obriga a organizar sua vida, carregar sua bagagem, limpar sua sujeira, lidar com seus erros, comemorar seus acertos. E esse aprendizado é valioso pra vida.

 

Bomde: É possível dizer quantas vezes você ouviu “mas você vai sozinha?!”? Estar sozinha não é estar solitária, certo?

 

Gaía: Pode ser também. E tudo bem estar solitária. Quanta gente não está solitária mesmo cercada de pessoas, mesmo estando com uma família ou num relacionamento? Acho que aprender a respeitar a própria solidão é uma coisa valiosa, tão necessária quanto aprender a ficar bem sozinha, a se bastar. Sobre a frase, usei num post do blog ano passado e acabou sendo título do livro. Funciona bem porque é uma frase que toda mulher ouve em algum momento, independente de idade, situação social, de ser ou não viajante.

 

Bomde: E pra finalizar, pra você, o que é O Bom de Viajar?

 

Gaía: Acabei de voltar de uma semana sozinha em Oaxaca e tô completamente apaixonada pelo México. O Bom de Viajar, pra mim, é esse fascínio e deslumbre que sinto pelos lugares por onde passo. Ainda mais em fases tão tristes como a que a gente vive hoje, ver o mundo e entender que as pessoas superam, sobrevivem e seguem criando coisas maravilhosas é O Bom de Viajar.

 

 

Gaía na África do Sul
Cabo da Boa Esperança (África do Sul)
Gaía em Portugal
“Ver o mundo e entender que as pessoas (…) seguem criando coisas maravilhosas é o Bom de Viajar”.
Gaía em Portugal
“Aprender a respeitar a própria solidão é uma coisa valiosa.”

 

 

Gaía, voa, e siga nos inspirando!

 

Viajar é trocar a roupa da alma. Seja por um fim de semana curtindo uma staycation, seja passando o feriadão em outro estado, ou ainda, aquelas férias tão sonhadas em outro país. O que importa é estar sempre em movimento. Basta ir!